Recordação: Lula paga mico em Israel. A Insensatez dos Sem-Limites (ou a ausência de limites na ação dos insensatos)
23/07/2012
foto - http://www.youtube.com/watch?v=qp8pMmkHqU8
Evidentemente, Israel não pode ver com bons olhos os governos que se manifestem em apoio às pretensões do Irã. Inclusive os governos sul-americanos que o façam, por pequeno que seja o seu efetivo peso internacional ─ e, visto o Brasil de certo prisma, «pequeno» será força de expressão. Assim sendo, Israel não poderá estar contente com o que Lula da Silva e seus assessores vêm tentando promover. Evidentemente. E compreendemos isso perfeitamente.
No entanto, como a uma recente declaração de Moshé Yaalon, vice-primeiro-ministro encarregado de Assuntos Estratégicos de Israel (literalmente:"Àqueles que pedem que seja criada uma comissão internacional de investigação precisamos responder que Israel é um Estado democrático independente e não uma república das bananas" - vem, agora, somar-se o vídeo de um programa humorístico da tevê israelense, traduzido ao português e divulgado pelo youtube (1), em que os excessos de Lula da Silva são criticados, ser-nos-á lícito desconfiar de que devemos atribuir intenção à declaração feita pela autoridade israelense e vinculá-la à intenção das imagens exibidas no vídeo. E nos será lícito também desconfiar de que há uma gente por aí que, de tão perturbada em seus interesses e objetivos, considera-se no "direito" de se manifestar de maneira absolutamente inadequada e insensata. Ou seja, uma gente que extrapola presumidas conveniências de maneira inconsequente.
Esse "direito" ninguém terá. E quem supuser que o tem, não tem juízo. Ainda mais se estiver, inequivocamente, necessitando de apoio internacional, tal como é a atual situação, vulnerável ao extremo, de Israel. Que estará, exatamente, essa gente confusa pretendendo nos dizer, a nós, brasileiros? A declaração e o vídeo pretendem ser"humor"? Só se for humor negro, e de 3ª categoria.
Criticar atitudes políticas estúpidas é um dever. E a qualquer um será permitido. Um boçal, por mais insignificante que seja, será capaz de provocar hecatombes nacionais e mundiais. E, embora nem apelar à chacota para fazer críticas a um boçal qualquer acrescente a essas críticas argumentos consideráveis, nem chacota alguma deva ser levada a sério, fazer chacota será permitido, também. E poderá até nos parecer divertido. Mas para tudo há um limite, limite que separa o sério do ridículo, a tolerância da estupidez, e a sensatez da insanidade.
Assistir a um programa produzido em país estrangeiro que exiba a BANDEIRA BRASILEIRA como pano de fundo de um quadro humorístico que tende ao deboche e não considerar isso absolutamente inadmissível, um insulto gratuito, uma agressão descabida, será aceitar de bom grado um atestado ou um carimbo na testa que qualifique o portador como estúpido, insano e ridículo perante o mundo. Estará toda essa gente tão confusa, apenas por pura ignorância, confundindo também o Governo de Lula da Silva com o ESTADO BRASILEIRO como só os ignorantes são capazes de fazer?
É preciso definir, isso. Porque uma Bandeira é o símbolo de um ESTADO, nunca de um Governo. E porque, se um (suponho) brasileiro que se declara "judeu, descendente de avós que perderam pais e irmãos no Holocausto nazista", declara também que "não é possível distinguir o Estado judeu dos judeus" (2), por certo haverá judeus perfeitamente capazes de compreender que não há como distinguir o ESTADO brasileiro dos brasileiros todos. Ou o que pode ser bom e válido para uns não será válido e bom para outros tantos, que seriam"diferentes"? Já estamos meio crescidinhos demais para continuar acreditando em empoeiradas histórias da carochinha... Não?
É preciso também compreender que procurar bem avaliar e ponderar os fatos, porque fazer isso nos é necessário, não se confunde em hipótese alguma com tomar partido incondicional por uma das forças neles envolvidas e entrar na «torcida» como se uma guerra latente fosse a concentração para um jogo de futebol.
Respeito é muito bom; e eu, brasileira com muita honra e muito orgulho porque sei que os posso ter, não só gosto de respeito como o exijo. Mas não só eu gostarei de respeito, é claro. Se todo mundo gosta, seria bom também que quem sempre se destacou por considerar-se como sendo dono de verdades eternas e absolutas fosse mais de manso, ficasse mais na sua, não se assanhasse mais do que pode e deve, e não aprontasse outra peça infeliz parecida com essas duas que pudemos ver. Que fosse brincar com seus brinquedos e fazer desordem no seu próprio quintal. Aqui, não! Esta nossa terra aqui anda parecendo que não tem, mas tem, sim, dono. Qualquer dia desses, ele dará o ar de sua graça, tal como já pôde fazer.
Pois é. Se todos se conformassem com seguir estritamente os protocolos, não só os estrangeiros não nos pareceriam tão mal-educados, tão antipáticos e tão prepotentes, como nossos governantes também assim não lhes pareceriam; não só o mundo seria bem mais elegante como poderia ser evitada pelo menos a metade das asnices que cobrem esse nosso céu de anil como uma nuvem espessa e escura, impedindo que o sol beije a nossa terra dita tão amada... tão idolatrada...
Quando será que algum discernimento se manifestará em algum lugar deste mundo para que possamos acreditar que a inteligência possa ainda existir apesar de andar hoje em dia tão sumida? E que jerico inconsequente poderia ter tido a maldita idéia de sugerir que alguém use a grosseria descabida desse vídeo israelense como peça de campanha em nossas eleições presidenciais?
Nessa confusão toda, não há como saber quem vem sendo orientado e quem orienta. Mas seja descendente de judeus ou qualquer-coisa-descendente, se alguém já utiliza ou considera a utilização desse vídeo estúpido ou de coisa parecida como peça de campanha de algum candidato pelo qual tenha, pelo motivo que for, especial predileção, estará oferecendo prova cabal de que esse candidato nada tem, de fato, a nos dizer; e demonstrará apenas o que pensa de nós, nós-brasileiros-todos, igualando-se aos adeptos de Lula da Silva na exata dimensão da ignorância e da irresponsabilidade, e na exata profundidade do mal que se pretende fazer a nosso País.
Vânia L. Cintra é socióloga, com especialização em docência do ensino superior (PUCCAMP), mestrado em Integração da América Latina (USP) e doutorado em Relações Internacionais.
Publicado no site http://www.jornaldefesa.com.pt em 09/06/2010