Seminário sobre a Amazônia A Defesa Aeroespacial da Região Amazônica
23/01/2012
fotos: Força Aérea Brasileira
vídeo - http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=cTrxdHlfhJo
Reprodução da Palestra realizada na Escola Superior de Guerra, proferida pelo Cel. Av. Manuel Cambeses Júnior.
01 – Introdução
Em primeiro lugar, desejamos expressar a nossa súbita honra e mui grata satisfação de poder aqui comparecer, nesta prestigiosa e tradicional Casa de Altos Estudos, para falar-lhes, sucintamente, sobre um tema que, para nós brasileiros, além de momentoso, consideramos muito significativo e atraente por evidenciar a sua magnitude e a sua importância para a segurança da navegação aérea, proteção do ecossistema e, principalmente, a defesa da base territorial e do espaço aéreo sobrejacente à Região Amazônica.
02 – Objetivo
O tema que iremos abordar intitulado «A Defesa Aeroespacial da Região Amazônica», contempla a trilha temática proposta e orientadora para a consecução deste Seminário «A Amazônia Brasileira no Século XXI», por entendermos que a implementação do ambicioso e criativo Projeto SIVAM constitui importante e destacado marco no avanço científico-tecnológico, além de contribuir, significativamente, para a segurança da navegação aérea na Região Amazônica, a proteção do meio-ambiente e o incremento do Poder Aeroespacial da Nação brasileira.
Ademais, faz-se mister destacar a importância do SIVAM como pólo catalisador e contributivo para a integração dos países integrantes do arco amazônico, no que concerne aos fatores segurança da navegação aérea e policiamento do espaço aéreo contíguo às nossas fronteiras.
03/04 – Sumário e Comparação de Áreas
Para a apresentação desta palestra, nos pautaremos no seguinte sumário:
A maior e mais diversificada floresta tropical do planeta, que abrange uma área de mais de cinco milhões de quilômetros quadrados, 60% de todo território nacional, que guarda em suas entranhas uma enorme diversidade de fauna e flora, reservas minerais abundantes e hidratada pelos maiores mananciais de água doce do mundo, não está mais desprotegida. A partir do ano de 2002, com a inauguração do Sistema de Vigilância da Amazônia – SIVAM, e de uma imensa rede de monitoramento e controle do espaço aéreo, as agressões que vêem sendo perpetradas ao ecossistema amazônico ao longo de décadas, bem como o tráfego ilícito de aeronaves cruzando a vastidão da Amazônia, não mais ficarão sem a devida detecção.
05 – Diagnóstico/Síntese – A Ausência do Estado
O passo inicial para a implementação do ambicioso projeto foi dado em 1990 quando o Ministério da Aeronáutica, a Secretaria de Assuntos Estratégicos e o Ministério da Justiça apresentaram à Presidência da República uma Exposição de Motivos objetivando criar um complexo sistema que garantisse maior segurança à navegação aérea e, concomitantemente, realizasse uma efetiva vigilância e proteção da Amazônia brasileira. Nascia, assim, o Projeto SIVAM com a iniciativa do Governo Federal ao declarar sua firme intenção de assumir o papel de protetor da grande floresta.
O contrabando e tráfego de drogas utilizavam a porosidade de nossas fronteiras trazendo armas, substâncias estupefacientes e produtos industriais que escapavam das taxas governamentais normalmente aplicadas nos pontos de entrada do País. Carregamentos dos mais diversos tamanhos entravam pelo ar e pelos rios da região, desaparecendo rapidamente na imensidão territorial até reaparecerem novamente nas cidades grandes ou buscando portos de saída para os promissores mercados norte-americano e europeu. Em contrapartida, produtos amazônicos dos mais diversos, desde pássaros raros, peixes exóticos e animais tropicais, até à madeira de lei e os milhares de produtos da biodiversidade da floresta, eram retirados do País sem benefício algum para os seus habitantes.
Depreende-se que, diante dessa problemática, o Governo brasileiro passasse a dispor de uma capacidade de coordenação de vigilância integrada, reunindo todos os seus meios capazes de coibir ações ilícitas, tanto na Região Amazônica, quanto dela provenientes.
O desconhecimento de boa parte da floresta amazônica também era uma preocupação para os integrantes da coalizão que lutava para implementar o projeto junto à Presidência da República. Durante séculos, a população brasileira, à margem das pesquisas realizadas por renomados cientistas das mais diversas especialidades, pouca idéia fazia das imensas riquezas existentes no meio da selva. Fazia-se necessário o conhecimento da região para que a coleta de informações científicas, que diversas empresas e nações vinham patrocinando, revertesse em benefício dos habitantes locais.
Para tal, era preciso que o Brasil conhecesse a Amazônia como nunca o fizera antes.
Finalmente, o programa deveria trazer progresso, desenvolvimento e conforto para a crescente população da região, os amazônidas. A Nação, que tanto esforço fizera, durante tantos anos, para chegar até aos seus mais distantes habitantes, nas asas da Força Aérea Brasileira, não os havia esquecido. Agora, com a tecnologia a seu lado e com a disposição de abraçar a grande região verde, chegava para integrar ainda mais o homem da Amazônia ao restante País.
Em 21 de setembro de 1990, era dada a partida para a implementação do ambicioso projeto, através de Exposição de Motivos aprovada pelo Presidente da República. A Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República deveria preparar um sistema nacional de coordenação, integrando todos os órgãos governamentais numa rede de usuários únicos de grande eficiência. A informação gerada pelos meios do programa seria distribuída para cada entidade do Governo de acordo com suas necessidades específicas.
A Aeronáutica, velha conhecedora da região, tornou-se a responsável pela implantação e pelo gerenciamento dos vetores do projeto. Garantiria também o seu funcionamento. Já o Ministério da Justiça proporcionaria o respaldo legal ao projeto, possibilitando a totalidade de ação aos meios capazes de coibir os atos ilegais perpetrados na região.
Até alguns anos atrás, os pilotos militares costumavam observar pequenos aviões voando livres sobre a selva, na maioria das vezes transportando contrabando e drogas, sem muito poder fazer. Também era muito comum nossos cientistas constatarem que diversos produtos estrangeiros possuíam fórmulas com componentes somente obtidos através de recursos naturais da selva amazônica. Ademais, os nossos diplomatas estavam cansados de escutar que seu País era o causador dos maiores infortúnios ecológicos do planeta, devido à ação predatória de garimpeiros e criminosas queimadas extensivas da selva tropical.
No que concerne à navegação aérea, carecia a Amazônia de um melhor monitoramento das aeronaves que cruzavam seu espaço aéreo. Devido às longas distâncias a serem percorridas, muitas vezes os pilotos ficavam à mercê da própria sorte, por não disporem de informações correntes e informações meteorológicas altamente precisas. Os auxílios à navegação sofriam um grande espaçamento, o que exigia, principalmente para as aeronaves de menor porte e escassos recursos de comunicação/navegação, um permanente contacto com o solo de modo a efetuar as devidas correções de rumo, carreando sérios transtornos aos tripulantes e comprometendo seriamente a segurança de vôo.
Em que pesem essas enormes dificuldades, a Força Aérea Brasileira sempre marcou presença em todos os rincões da imensidão amazônica, através das linhas do Correio Aéreo Nacional e do espírito desbravador e patriótico de seus tripulantes.
06 – SIPAM
Para liderar as ações que levariam à implementação do Projeto SIVAM e do Sistema Nacional de Coordenação, cujo nome foi logo modificado para SIPAM – Sistema de Proteção da Amazônia –, a Aeronáutica escolheu excelentes oficiais, dotados de profundos conhecimentos técnicos e elevado espírito participativo para deslanchar os trabalhos. Devido a essas benfazejas providências, e a disponibilidade dos recursos alocados, sem solução de continuidade, cinco anos após o início dos trabalhos o SIVAM estava em condições de funcionar.
Ao todo o Projeto consumiu cerca de US$ 1,4 bilhão, captados no exterior a título de financiamento pagável em cerca de vinte anos. É evidente que o grande montante financeiro envolvido na compra de equipamentos e serviços também envolveu grandes empresas, nacionais e estrangeiras, dispostas a obter participação no fornecimento de meios de alta tecnologia.
Desconhecendo as nuances e até mesmo a importância do projeto para o crescimento do País, a própria opinião pública nacional se mostrava indecisa diante da polêmica que este gerava nas mais diversas camadas da sociedade brasileira. Diante de todas as intempéries, a Aeronáutica manteve-se firme, empurrando o conceito SIVAM para a frente, passo a passo, cumprindo cada meta de seu cronograma até que o Projeto estivesse inteiramente aprovado, definido, compreendido e pronto para ser levado a cabo.
O principal objetivo do Projeto SIVAM é levar o Governo Federal como um bloco compacto, ativo e presente na Amazônia brasileira. O que possibilita essa presença é a tecnologia de informações existente a partir da última década. Antes, a transmissão de informações e conhecimento exigia uma forte presença física que a Nação Brasileira se via impossibilitada de prover devido às constantes privações orçamentárias a que estava exposta. Até então, a presença física do País na Amazônia se fazia primordialmente pelas Forças Armadas, que assumiam um importante papel pioneiro. Com o advento de avançados meios de telecomunicações e a chegada da era digital, as distâncias diminuíram, capacitando a transmissão em tempo real de dados e informações com grande facilidade. O SIVAM aproveitou a existência dessas tecnologias para integrar os principais órgãos do Governo com responsabilidades na região, num único esforço.
07 – Projeto SIVAM
Ao longo do território amazônico foram instalados 25 sítios dotados de equipamentos de telecomunicações, estações meteorológicas de superfície e de altitude, radares móveis e fixos de vigilância e estações providas de transmissores VHF. Chamadas de Unidades de Vigilância, estão localizadas nas cidades de Boa Vista (em Roraima), São Gabriel da Cachoeira, Tabatinga, Manaus, Manicoré, Tefé e Einurepê (no Amazonas), Jacareacanga, Cachimbo, Belém, Santarém, Marabá, São Félix do Xingu e Conceição do Araguaia (no Pará), Santa Isabel do Morro, Sinop e Porto Esperidião (no Mato Grosso), Porto Velho, Vilhena e Guajará-Mirim (em Rondônia), Rio Branco e Cruzeiro do Sul (no Acre), Tiriós e Macapá (no Amapá) e São Luís (no Maranhão).
Além das Unidades de Vigilância, o SIVAM montou, também, diversas Unidades de Telecomunicações equipadas com aparelhos capazes de transmitir dados de voz, texto e imagem para os diversos usuários do sistema. Esses dados, também produzidos e consumidos pelos órgãos usuários compostos de entidades governamentais locais, são processados por três Centros Regionais de Vigilância (CRV) localizados em Manaus, Belém e Porto Velho, que distribuem informações pertinentes aos órgãos regionais de governo, além de repassarem a totalidade dos dados adquiridos para o Centro de Coordenação Geral de Brasília, o verdadeiro centro nervoso, que garante o fluxo de informações gerados pelo sistema para os principais órgãos federais.
O SIVAM tem a capacidade não somente de monitorar, coletar e processar dados dos mais diversos da região, mas poderá atuar com presteza quando necessário. A aquisição de dados é proveniente de um grande número de sensores espalhados pela mata, nos céus e no espaço. Dois tipos de informações interessam ao Sistema: as ambientais – que visam construir uma base de dados que permita conhecer a fundo o delicado meio ambiente da região – e os dados de vigilância, que permitem que os usuários do sistema consigam monitorar as ações que porventura estejam ameaçando a soberania do País na região.
Para coletar dados ambientais, o SIVAM conta com satélites (TIROS, GOES/METEOSAT, SCD-1, LANDSAT, SPOT, CBERS e ERS-1) atuando no espaço e ligados diretamente aos CRV´s locais ou ao INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Conta também com aeronaves especialmente equipadas com radares de abertura sintética e com sensores multiespectrais. Estes atuam em altitudes menores, captando imagens debaixo de camadas de nuvens tão comuns no céu da Amazônia. Dez
radares meteorológicos são capazes de monitorar formações nas vinte e quatro horas do dia e da noite, enquanto estações de coleta de dados de altitude e superfície garantem a reunião das mais variadas informações.
08 – Exemplos de usuários
Os outros dados coletados e controlados pelo Sistema são os de vigilância, que permitem um aumento do controle da região por parte do Governo. Estes, também provenientes de satélites e aeronaves, são complementados por equipamentos de exploração de comunicações e de radiodeterminação, que permitem que as autoridades acompanhem, além dos movimentos aéreos, terrestres, marítimos e fluviais, as comunicações rádio de entidades ilegais atuando na Região Amazônica.
Integrados por 936 kits usuários, compostos de microcomputadores, aparelhos transmissores de Fax e antenas de transmissão via satélite, esses dados, quando reunidos, apresentam um riquíssimo quadro da região, que pode ser acessado a qualquer momento por qualquer órgão com interesses no local, seja ele o Exército, a Marinha, a Força Aérea, a FUNAI, o IBAMA, a Polícia Federal ou os governos locais, em níveis estaduais e municipais.
09 – Sistema de Vigilância da Amazônia
A Implementação do Controle de Tráfego Aéreo
Até bem pouco tempo, havia poucos lugares no planeta onde as aeronaves não podiam ser totalmente monitoradas de terra: os oceanos, partes dos principais desertos do planeta, as expansões geladas do Ártico, da Antártica e a Região Amazônica.
Sobrevoar a selva amazônica equivale a sobrevoar os oceanos. Existem poucos locais onde efetuar um pouso de emergência. As pistas construídas na selva aparecem tal qual ilhas no meio do mar, e são uma visão abençoada por pilotos com problemas em suas aeronaves. Nos últimos cinqüenta anos, a Comissão de Aeroportos da Região Amazônica – COMARA, conseguiu espalhar mais de uma centena de pistas por toda a Amazônia, reduzindo imensamente as distâncias entre uma aterrissagem e outra. Esse árduo trabalho aperfeiçoou a segurança de vôo na região, oferecendo um maior número de opções para os pilotos, em caso de emergência. No entanto, apesar de o Brasil estar coberto pela rede de radares do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo – CINDACTA –, a Amazônia permanecia praticamente às escuras no
que concerne ao controle de tráfego aéreo e da proteção ao vôo. Com a ativação do SIVAM, esta enorme lacuna foi integralmente ocupada. Radares fixos e transportáveis, radares aeroembarcados, o sistema de monitoramento meteorológico provendo dados sobre as condições do espaço aéreo em tempo real, equipamentos de proteção ao vôo e aeronaves destes sistemas interagem de tal maneira que garantem que espaço aéreo sobre a Amazônia possa ser monitorado ininterruptamente, transformando-se em confiável área de tráfego aéreo de aeronaves de todos os tipos.
10 – Cindacta
O sistema de controle do tráfego aéreo foi integrado aos CINDACTAS I e III, baseados em Brasília e Recife, respectivamente, garantindo uma integração de dados capaz de realizar em curto prazo o monitoramento de uma única aeronave durante seu tráfego, na totalidade do território nacional. As informações colhidas por esse sistema estarão disponíveis nos Centros Regionais de Vigilância de Manaus, Belém e Porto Velho e no Centro de Controle Geral, em Brasília. Ademais, foram implantados quatro sistemas de pouso por instrumentos ILS – Instrument Landing System – nos aeroportos de Boa Vista, Santarém, Cuiabá e Porto Velho, o que aumenta, enormemente, a segurança nas operações de aproximação final e pouso, uma vez que esses sistemas guiam as aeronaves, eletronicamente, para a aterrissagem, principalmente em situações de vôo noturno e/ou de mau tempo.
11 – HS-800XP
Para garantir o perfeito funcionamento de todos os equipamentos do SIPAM/SIVAM, foram adquiridas quatro aeronaves HS-800XP equipadas com painéis automatizados, que lhes permite aferir a exatidão dos sinais emanados dos equipamentos no solo sem a necessidade de deslocamento de equipes autônomas em terra. Operados pelo GEIV – Grupo Especial de Inspeção em Vôo –, os quatro novos aviões garantirão que o sistema estará sempre com a manutenção em dia, contribuindo para a segurança dos aeronavegantes sobre a selva. Com a chegada do SIVAM, voar sobre a Amazônia repentinamente deixa de ser uma aventura para se tornar uma rotina segura. Isto acarreta maior segurança para os grandes jatos que cruzam a região a milhares de metros de altura, reduz os altos custos cobrados às companhias aéreas que atravessam áreas não monitoradas, aumenta a capacidade de vigilância de tráfego ilícito e irregular – que, além de ameaçar a integridade econômica do País, é um risco nas próprias operações aéreas – e garantem até uma melhor condição psicológica, transmitindo segurança aos pilotos que sobrevoam o que até pouco tempo atrás era chamado de Inferno Verde.
As Asas do SIVAM
Após o advento do transporte aéreo, trazido inicialmente pelo Correio Aéreo ao longo dos anos, a Amazônia, finalmente, integrou-se eletronicamente. O aumento da capacidade de conhecimento científico da região, o monitoramento do meio ambiente e das ações ofensivas à economia do País e a capacidade de agir contra movimentos ilícitos com maior presteza, certamente irão modificar dramaticamente a vida na grande floresta. O aspecto mais visível do Projeto SIPAM/SIVAM, no entanto, está nos céus da Amazônia. Ao invés de solicitar ajuda externa para enfrentar a ameaça do narcotráfico e do contrabando, o Brasil resolveu agir. A Força Aérea Brasileira, há muito tempo atuante na Amazônia, passa a operar uma impressionante gama de aeronaves, visando ao efetivo controle aéreo da região, o que certamente afetará a excessiva liberdade de uma significativa soma de contrabandistas aéreos que até bem pouco tempo se beneficiavam da porosidade da enorme fronteira.
12 – EMBRAER ERJ-145
Cinco aeronaves de vigilância aérea, do tipo EMBRAER ERJ-145SAAEW&C, designados R-99 pela Força Aérea Brasileira, fazem o trabalho complementar dos 25 radares de solo, que estão trazendo uma efetiva cobertura dos céus da Amazônia. Todas as aeronaves sobrevoando a região serão monitoradas, seus planos de vôo confirmados e autorizados. No entanto, mesmo com esta capacidade, qualquer aeronave sobrevoando a região em baixa altitude passará despercebida ao controle.
A maior parte do tráfego de aeronaves de menor porte envolvidas em atividades ilícitas – que vão desde o tráfico de entorpecentes ao contrabando de armas e eletrodomésticos para o mercado interno e ouro, minerais preciosos, dinheiro em espécie, animais ornamentais e matéria de valor científico para o exterior – utiliza o vôo em baixa altitude para fugir da vigilância exercida pelo Controle.
Destes, os mais perigosos são os traficantes de drogas que há muitos anos vêm buscando mais rotas de escoamento através do Brasil, fugindo do bloqueio cada vez maior das autoridades dos países produtores: Colômbia, Peru e Bolívia. A droga, em sua maior parte cocaína processada, é transportada em aeronaves de pequeno porte através da fronteira norte, procurando chegar a Manaus, a Belém e às cidades do Sudeste brasileiro, onde poderão ser embarcadas para os principais mercados compradores na Europa e nos Estados Unidos. Voando a poucos metros das copas das árvores, em mau tempo e muitas vezes sob o manto da noite, esses aviões são alvos praticamente impossíveis de serem detectados pelos radares em terra. Mas não pela aeronave R-99. Dotada de um radar planar aeroembarcado do tipo OS-890 Erieye, o R-99A pode voar em completo silêncio, buscam alvos de cima para baixo, cobrindo assim todas as alturas de seu nível de vôo até ao solo.
13 – ERJ-145
Qualquer aeronave voando dentro de seu raio de detecção de cerca de 350 quilômetros é interpelada caso seu plano de vôo não seja confirmado, ou se estiver numa atitude suspeita. Em sua cabine, três operadores dos sistemas terão controle completo de enormes pedaços de céu à sua volta. Além do retrato-radar, possuem à sua disposição sistemas de inteligência de sinais que lhes permitem monitorar diversas freqüências de comunicações, assim como as emissões eletrônicas que, não autorizadas, são abundantes na Amazônia brasileira. O avião, um ERJ-145 da versão ER – ou Extended
Range – Alcance Estendido, transporta o radar de cerca de 1.300 kg sobre a fuselagem. Na cabine, além dos dois pilotos e dos três operadores de consoles, o avião pode transportar uma tripulação-reserva composta de cinco homens em confortáveis acomodações, permitindo longas etapas de missão.
Ocorriam ao longo dos cerca de 16.000 quilômetros de fronteira brasileira mais de 3.000 movimentos aéreos não autorizados por dia. Estes iam do fazendeiro, cuja pista se encontra a menos de 15 minutos de vôo da fazenda de um amigo do outro lado da fronteira, aos envolvidos em atividades que lesam a economia nacional. A maioria não emite plano de vôo, que é um documento de suma importância para as autoridades que controlam o tráfego aéreo sobre o País. Quando uma aeronave R-99A detecta um avião sem plano de vôo em sua área de atuação, imediatamente interpelará sua tripulação, a fim de determinar a sua intenção.
14 – Super-Tucano
Se estes atuarem de forma suspeita ou se tentarem fugir da ação das autoridades, a aeronave radar imediatamente acionará os aviões Embraer EMB-314 ALX, designados A-29 pela FAB. Estas robustas aeronaves, desenvolvidas a partir do famoso treinador EMB-312 Tucano, permitem que a Força Aérea opere com total eficiência na região. Dotados de uma versão mais avançada do motor PT6A, além de uma hélice Hartzel de 5 pás, os A-29 apresentam um desempenho operacional muito superior ao do Tucano T-27 convencional. Ao mesmo tempo, são capazes de operar na faixa de performance das aeronaves de aviação geral normalmente utilizadas pelo narcotráfico. Os A-29 estão equipados com aviônica digital de última geração compatíveis com aparelhos de visão noturna, equipamento de visão infravermelha FLIR Star Safire, o que lhes permite operar de noite, fechando, desta forma, a atuação dos tráfegos ilícitos.
No vizinho Peru, o Governo tem-se esforçado (com empenho) para coibir vôos do narcotráfico utilizando aeronaves EMB-312 Tucano especialmente equipadas e armadas para a missão. Nos últimos anos, a Força Aérea Peruana já abateu mais de cem aeronaves do narcotráfico que não acataram as instruções de se render ou que adotaram atitudes hostis contra as aeronaves do Governo. Com o incremento das atividades da FAP, os vôos do narcotráfico começaram a ficar cada vez mais arriscados, o que inflacionou sobremaneira o salário dos pilotos que se dispunham a realizar vôos em vagas nas quais somente algumas aeronaves carregavam drogas, enquanto outras serviam para confundir as autoridades e pousavam em diversas pistas espalhadas pela selva da Amazônia peruana. Logo a FAP encontrou meios de combater essa tática, aumentando suas patrulhas aéreas e intensificando seu trabalho de inteligência no solo. A reação do narcotráfico foi começar a voar à noite, o que, por sua vez, exigiu uma adequação da Força Aérea Peruana ao novo desafio.
Conhecedora dos detalhes desta verdadeira guerra silenciosa que se está travando sobre as selvas do Norte do Continente, a Força Aérea Brasileira procurou cercar-se de todas as tecnologias que permitem evitar que as rotas do narcotráfico elejam o território brasileiro como opção à Saída Norte rumo aos Estados Unidos e à Europa. Os A-29 estão armados com duas metralhadoras de 12.7 mm nas asas, canhões GIAT NC621 de 20 mm em casulos subalares, mísseis ar-ar infravermelhos CTA/Mectron MAA-1 Piranha, além de poderem carregar bombas convencionais, guiadas e lançagranadas, o que permite que também possam atuar contra forças militares irregulares na eventualidade de uma transgressão da fronteira por grupos guerrilheiros.
Um avançado sistema de transmissão de dados permite que essas aeronaves operem em total silêncio eletrônico, suas comunicações sendo transmitidas para os R-99 e para o solo sem que possam ser interceptadas.
Baseados em Manaus, Boa Vista e Porto Velho, mas podendo ser deslocados para diversos aeródromos da região – o que dificulta a observação de suas atuações por olheiros no solo – os A-29 são as garras do SIPAM/SIVAM, fazendo os céus da Amazônia brasileira local pouco interessante para o narcotráfico.
Entretanto, esses poderosos grupos criminosos poderiam tentar ingressar em território nacional através dos rios ou, ainda, abrir clareiras para a construção de laboratórios e depósitos na selva do lado brasileiro da fronteira. Novas pistas clandestinas, que já se espalham às centenas pela Amazônia podem ser abertas com relativa facilidade, dificultando sobremaneira a ação das autoridades envolvidas no mapeamento das áreas de atuação dos vôos clandestinos.
15 – Embraer ERJ-145RS
Para combater essas ameaças, a FAB conta com três aeronaves de sensoriamento remoto Embraer ERJ-145RS designadas de R-99B, dotadas de um radar de abertura sintética Mac Donald Dettwiler IRIS capaz de gerar imagens em três dimensões e de poder localizar alvos móveis no solo com grande facilidade a até 100 quilômetros de distância. Instalado sob a fuselagem, vasculha o solo, sendo capaz de realizar o mapeamento do terreno com precisão muito superior à dos satélites comerciais atualmente utilizados, provendo inteligência detalhada sobre as bases de apoio do narcotráfico no solo. Equipamento de infravermelho FLIR Star Safire e consoles de monitoramento eletrônico permitem que atue em complemento aos R-99A, cobrindo todas as possíveis áreas de atuação de grupos que apresentem qualquer tipo de ameaça ao País. O R-99B também utilizará os sensores para a cartografia, uma vez que existem áreas inteiras da Amazônia brasileira que não constam de mapas detalhados. Em dez dias de operação, os R-99B da FAB serão capazes de mapear uma área de cerca de
1,5 milhão de quilômetros quadrados.
16 – 3 Sensores Remotos de Alto Desempenho
Na atualidade, a totalidade da Amazônia brasileira está conhecida na escala 1/100.000, transformando em realidade o antigo sonho das autoridades brasileiras de conhecerem integralmente a Região Amazônica.
Scanners multiespectrais, operando em bandas que vão do visual ao infravermelho termal, possibilitarão a análise científica e o acompanhamento da situação do meio ambiente através de mapas temáticos cumulativos que permitirão que sejam detectados fenômenos como o desflorestamento, as queimadas, os incêndios acidentais, a mudança dos leitos dos rios, os efeitos da diminuição dos níveis de ozônio na atmosfera devido à ação desenfreada das indústrias dos países do Hemisfério Norte e a ocupação predatória de regiões inteiras da Amazônia.
17 – Aeronaves
Mais um passo
Desde os heróicos vôos dos pioneiros do Correio Aéreo Militar, que já visualizavam a necessidade de buscar o interior do Brasil, a Força Aérea Brasileira sempre esteve presente na Amazônia. Mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, o Correio Aéreo Nacional continuou voando para levar alento às populações mais distantes dos centros urbanos. Nos anos cinqüenta e sessenta do século passado, a Força Aérea incrementou o Correio Aéreo Nacional, chegando à fronteira e construindo pistas incansavelmente. No final do século XX, aumentou sua presença na região, consolidando a atuação do País junto aos brasileiros mais necessitados.
Nomes de cidades antes exóticos passaram a fazer parte do dia-a-dia de milhões de brasileiros para quem a Amazônia era quase tão distante quanto os países dos outros continentes. Pouco a pouco, as cidades do Planalto Central começaram a crescer, levando cada vez mais brasileiros para o interior. Com coragem e visão, os homens da Força Aérea encabeçaram o Projeto SIPAM/SIVAM, iniciando mais um passo na sua missão de desenvolver e proteger o País.
Respondendo aos que acusam o Brasil de atentar contra o meio ambiente destruindo a Amazônia, o Governo vem mostrando, através deste portentoso Projeto, que cuida de sua porção da Amazônia com dedicada atenção, atentando para sua responsabilidade perante a natureza. Ao mesmo tempo, organiza-se para desarticular as rotas do narcotráfico que violam o seu território. Controlando a Amazônia, o Brasil começa a mudar o quadro de espoliação de seus recursos naturais, perpetrado justamente por integrantes de países mais verbais quanto a presença do povo brasileiro na região.
À frente do enorme esforço de garantir a soberania da Amazônia, está a Força Aérea Brasileira. Levando alento às populações isoladas e carentes, integrando a Nação, ressuprindo os pelotões de fronteira do Exército Brasileiro, construindo pistas de pouso, aeródromos e aeroportos, monitorando diuturnamente o espaço aéreo e garantindo a segurança dos aeronavegantes que cruzam diariamente os céus da Amazônia, a FAB continua cumprindo integralmente a sua importante e nobre missão.
Já estamos colhendo os bons frutos desse benfazejo e auspicioso Projeto.
18 – Participação dos Países Vizinhos ao SIPAM/SIVAM
A Amazônia brasileira tende a integrar-se harmoniosamente, de modo participativo, com a nossa circunvizinhança – composta pelos países amigos lindeiros com as fronteiras Norte, Noroeste e Oeste brasileira e que conformam o arco amazônico. Ademais, aquela imensidão verde, de dimensões continentais, finalmente está integrada ao restante do País, de forma indelével, sem o receio de invasões indesejadas, com plena capacidade de detecção das ameaças e de pronta-resposta militar àqueles que se atreverem a penetrar indevidamente no território amazônico e/ou violar o espaço aéreo sobrejacente àquela região, desafiando a soberania brasileira.
19 – MAQUIAVEL
Gostaria de lhes apresentar uma citação de Maquiavel que bem representa o esforço e a dedicação na implementação do ambicioso e criativo Projeto SIVAM:
"Não existe nada mais difícil de se alcançar, mais perigoso de conduzir ou de êxito mais incerto, que liderar a introdução de uma nova ordem de coisas"
20 – Sistema de detecção e alarme aéreo antecipado
Com a implementação do Projeto SIVAM, a Nação passou a contar com um eficaz e portentoso sistema de detecção e alarme aéreo antecipado. Porém, de nada servirá esse escuro eletrônico protetor e a recente implementação da «Lei do Abate», se a Força Aérea não dispuser de aeronaves interceptadoras de alta performance e plenamente confiáveis para o cumprimento de sua tarefa operacional de defesa aérea. Ademais, impõe-se que tenhamos equipagens de combate proficientes e altamente adestradas em missões de interceptação, de modo a prover total confiabilidade ao sistema de defesa aeroespacial.
O Governo brasileiro não pode continuar postergando, infinitamente, a aquisição de aviões de combate de primeira linha para a Força Aérea, sob pena de comprometer seriamente o seu trabalho primacial: o de manter incólume e inviolável o nosso espaço aéreo, notadamente a Amazônia brasileira, alvo permanente de ilícitos de toda ordem e da cobiça internacional.
Lembremo-nos das sábias palavras do insigne Barão do Rio Branco – O Chanceler da Paz – que enfatizava, de modo contumaz, a imperiosa necessidade de possuirmos um bom sistema de armas para respaldar as nossas proposições no concerto das nações.
21 – Soberania Nacional
O tema que acabamos de apresentar, acima de tudo, é uma questão de soberania nacional. Trata-se de um imperativo geopolítico e como tal deve ser encarado.
Preocupemo-nos com a nossa Amazônia, com a premência que o assunto requer, antes que seja tarde demais ...
Manuel Cambeses Júnior
Coronel-aviador; membro emérito do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil e conselheiro do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica.
E-mail: mcambeses@yahoo.com.br
http://saiddib.blogspot.com/2010/11/manuel-cambeses-jr.html
Enviado por
Manoel Soriano Neto
Coronel de Infantaria e Estado-Maior do glorioso Exército Brasileiro, Historiador Militar.
msorianoneto@hotmail.com